2025/09/13 by Rodrigues, Ana Rita, Barreto, Joana, Duarte, Delfim +1
#Acidente vascular cerebral #disfagia orofaríngea #videoendoscopia da deglutição
paper · doi:10.34631/sporl.3082
Introdução: O acidente vascular cerebral (AVC) é uma das principais causas de morbilidade e mortalidade nos países desenvolvidos. A disfagia orofaríngea (DOF) é a segunda complicação mais frequente na fase aguda pós-AVC e é um preditor independente de evolução desfavorável e institucionalização, estando associada a internamentos hospitalares mais prolongados, com um impacto económico significativo. Existe uma associação documentada entre a presença de determinadas características sociodemográficas e clínicas e a incidência de DOF pós-AVC, designadamente: idade avançada, presença de défice cognitivo, maior grau de dependência, National Institute of Health Stroke Scale (NIHSS) à admissão superior a quatro e envolvimento do tronco cerebral. Objetivos: Neste estudo pretendeu-se caracterizar do ponto de vista sociodemográfico e clínico os doentes em fase aguda de AVC num hospital terciário submetidos a avaliação instrumental da deglutição com videoendoscopia (VED) por suspeita de disfagia e correlacionar os resultados obtidos na VED sugestivos de DOF com cada uma das variáveis. Métodos: Foi realizada uma análise retrospetiva de 68 doentes submetidos a VED na fase aguda pós-AVC no Hospital Pedro Hispano de 2018 a 2023, com descrição do seu perfil sociodemográfico, características do evento e achados da VED. Resultados: Quanto ao perfil sociodemográfico: 73,53% tinham pelo menos 70 anos, 60,29% eram do sexo masculino, 36,76% apresentavam algum grau de dependência e 13,24% tinham antecedentes de demência. Quanto às características do evento: 83,83% dos AVCs eram de etiologia isquémica, 80,88% cursavam com envolvimento dos hemisférios cerebrais, 16,18% do tronco cerebral e 7,35% do cerebelo, e 85,29% tinham um NIHSS à admissão superior a quatro. Relativamente aos achados da VED: 42,65% dos doentes apresentavam estase salivar significativa, 60,29% tinham atraso no reflexo orofaríngeo da deglutição, 48,53% apresentavam resíduo após a deglutição, em 10% casos constatou-se paralisia das cordas vocais e 57,59% tiveram penetração ou aspiração, das quais 12% foram aspirações silenciosas. Após análise comparativa de todas as variáveis sociodemográficas e clínicas com a presença de DOF, obteve-se uma relação estatisticamente significativa apenas para a presença de NIHSS à admissão superior a quatro (p=0,015). Discussão: Embora a presença de alguns destes fatores de risco possa sinalizar um risco acrescido de DOF em doentes na fase aguda pós-AVC, a sua pesquisa não substitui uma avaliação instrumental da deglutição. Por outro lado, a VED permite identificar estase salivar ou atraso no reflexo orofaríngeo da deglutição e detetar aspirações silenciosas. A pneumonia de aspiração é a complicação mais frequente da DOF na fase aguda pós-AVC e é a principal causa de internamento hospitalar e de morte, sendo a presença de aspirações silenciosas o principal fator de risco. Conclusão: Embora a avaliação clínica da deglutição desempenhe um papel importante na avaliação da competência orofaríngea, carece de sensibilidade no rastreio da DOF nos doentes na fase aguda pós-AVC. Nestas situações, a VED é uma ferramenta mais fidedigna para avaliar a proteção da via aérea, cabendo aos otorrinolaringologistas um papel fundamental na avaliação destes doentes.